Os destinos e perigos da Inteligência Artificial

A Inteligência Artificial já há muito não é apenas tema ou enredo de Hollywood, nem tampouco matéria de artigo científico de tendências e perspectivas que o futuro nos reserva. É realidade que só faz estar presente e emaranhar-se cada vez mais em nosso quotidiano.

Muito se fala, principalmente dos seus benefícios e de tudo que ela pode contribuir para um mundo melhor. Mas como tudo na vida, há sempre o outro lado. O que o futuro – e mesmo o presente – dessa e de todas as tecnologias relacionadas nos reservam e que as pessoas evitam abordar? Quais as consequências e implicações de um mundo cada vez mais dependente da Inteligência Artificial? Quais os perigos estão sendo negligenciados?

O que é Inteligência Artificial?

É provável que muita gente saiba bem, ou pelo menos tenha alguma noção do que o termo representa.

Ele já faz parte explícita ou implicitamente de muita coisa. Mesmo alguns dos mais avessos e resistentes à tecnologia, possivelmente já utilizaram algo que em menor ou maior grau, faz uso da Inteligência Artificial.

Você pode até não ter uma Smart TV, ou smartphone de última geração, ou qualquer outro gadget que tenha 0,0001% da tecnologia, mas se fez uma simples pesquisa em uma ferramenta de busca, certamente utilizou-se dela.

Ela está presente em boa parte do atendimento bancário, por meio dos assistentes virtuais inteligentes (AVI), em diferentes sites, como por exemplo em chatbots e uma série de serviços, sem que tenhamos conhecimento. 

Muitas diferentes definições existem. Algumas mais sofisticadas, outras mais simples e diretas.

Dizer que é dotar uma máquina da capacidade de assim como um humano, tomar uma decisão ou realizar uma ação com base na avaliação de informações (dados), é uma entre várias possíveis e existentes.

De fato, Inteligência Artificial é um conceito bem mais amplo e compreende uma série de outras tecnologias que são reunidas para produzir algo que se assemelha ao pensamento humano e que pode ser o simples acender de uma luz de acordo com o grau de luminosidade do ambiente, ou a disputa de uma partida de xadrez ou do jogo chinês Go, ou até mesmo avaliar milhares de dados e inúmeros cálculos para decidir pelo melhor dia e horário para colocação de um satélite em órbita terrestre.

Não é diferente dos desafios diários de qualquer pessoa. Inteligência não se aplica apenas ao planejamento anual que você faz para sua empresa. Envolve também a roupa que escolhe vestir, que pode parecer tão automático, que dispensa pensar. Mas ainda é pensamento e envolve alguma inteligência.

Mas a questão não é defender seu uso – da Inteligência Artificial – e tampouco estabelecer as possibilidades e áreas em que ela pode ser aplicada e os consequentes benefícios para quem dela se utiliza. Já há muita gente que faz isso.

Por que questionar a IA?

Há uma série de condições humanas que são difíceis até mesmo de descrever sob palavras. A complexidade que envolve a natureza dos indivíduos e a sua diversidade, não tem limites.

O que é altruísmo? Bondade? Empatia? Dignidade? Respeito? Direitos? A lista pode ser muito grande e a variedade de definições e entendimentos para apenas um desses substantivos abstratos, tão grande quanto.

Mais do que isso, o próprio entendimento de inteligência, não é algo concreto, rígido e imutável. O conceito de Inteligência Emocional, ou seja, a capacidade de aplicar suas faculdades mentais com isenção e livre de influências emocionais próprias ou ambientais, reforça isso.

É o conjunto de valores, princípios, emoções, experiências e ética, que estipulam os limites de nossa atuação. Como “ensinar” isso a um algoritmo? Como munir um sistema de IA – como a Inteligência Artificial também é conhecida – de honestidade?

Uma vez que muitos sistemas de IA visam maximizar lucros, minimizar o uso de recursos, otimizar o tempo, quando e como estipular que isso deve desconsiderar tudo para o que foi programado, quando o fator humano e qualquer ameaça a ele, estiverem envolvidos?

Elon Musk, é um entre muitos nomes conhecidos no mundo da tecnologia e dos negócios e que dela se beneficia, que faz um alerta: "Eu tenho acesso à IA de ponta e acho que as pessoas deveriam estar realmente preocupadas com isso".

O brilhante físico Stephen Hawking, vinha nos últimos anos também alertando para os riscos que a humanidade corre. Bill Gates, é outro que não consegue compreender o porquê das pessoas ainda não se preocuparem com os rumos que estamos tomando, mesmo sendo sua empresa uma das muitas a investir pesado em IA.

Assim, o mesmo cenário mostrado em filmes de ficção, que até pouco tempo pareciam restritos às telas, em filmes como “Eu, robô”, dia após dia começam a ser replicados na vida real. Até que ponto a realidade não vai imitar a ficção?

São muitas perguntas, que refletem preocupações concretas, à medida que a tecnologia evolui a velocidades muito superiores ao conjunto de normas que estipulam os limites seguros e que garantem a nossa própria existência.

O que há até o momento e que regula minimante as empresas e as ações envolvendo IA e tudo que orbita em torno dela, é muito pouco. Quase nada, para falar a verdade.

A exemplo disso, temos a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) que estabelece alguma normatização, mas que afeta apenas parte do intrincado universo que envolve IA.

Hoje já há cidades em que a Inteligência Artificial está amplamente presente em tudo. De câmeras de vigilância espalhadas pelos quatro cantos, a dispositivos que as pessoas carregam nos bolsos e bolsas, ou as peças de vestuário (tênis, camisa, pulseira, etc) que possuem conectividade de IoT (Internet Of Things), fazendo parte de uma categoria denominada wearables.

As redes sociais, os sites de e-commerce nos quais você compra, as pesquisas no Google ou no Bing, os apps instalados no seu smartphone, os e-mails que envia e recebe, tudo isso e muito mais, alimentando poderosos “Big Datas”, os quais sob avaliação de não menos poderosos sistemas de IA, Machine Learning e outras tecnologias menos populares, mas igualmente importantes, fazem com que as pessoas por trás disso, saibam mais de você do que você mesmo.

Está em jogo, o sigilo das informações a você associadas, a privacidade a que você tem direito e até mesmo a sua segurança. O que pode ser feito se tudo isso cai em mãos erradas?

E mesmo sob pretextos a princípio positivos ou sob as melhores intenções, se algo não funcionar como se pretendia?

A verdade é que ainda há regulamentação nenhuma que preveja o que fazer e, sobretudo, estipule os limites que devem ser respeitados. Não há limites para quase nada, quando o assunto é esse.

O que antes era decidido por um humano e sujeito a freios morais, agora pode ser responsabilidade de um algoritmo. Há implicações e desdobramentos éticos fundamentais.

Por fim, mas não menos importante, há os números, as cifras, os lucros e consequentemente os interesses por trás. Estima-se que até 2025, o mercado envolvendo IA, movimente 11 trilhões de dólares e 100 bilhões de dispositivos. É mais de 7 vezes o PIB do Brasil em 2019, considerando o câmbio a R$ 5,00!

Todos que direta ou indiretamente se beneficiam, estão dispostos a abrir mão de uma parte do seu quinhão em nome dos direitos e garantias individuais, da segurança ou da simples privacidade?

Os perigos e problemas da Inteligência Artificial

Até agora, o que se discutiu, foram apenas possibilidades com base no que temos de tendências e mesmo no que concretamente já se tem.

Já há uma série de consequências imediatas do emprego de tudo que envolve diretamente IA ou mesmo que permite que ela seja aplicada, como um simples computador para bicicleta que colhe dados de um percurso e alimenta seu histórico de treinamentos ou de simples passeios, disponibilizando-os em um site.

Desse exemplo hipotético, mas baseado nos hábitos de muitos ciclistas atualmente, há uma outra consequência imediata – o e-waste. Isso para não voltar a falar do aspecto da segurança e privacidade.

A velocidades cada vez mais rápidas, o ciclocomputador ou o seu smartphone e uma série de outros gadgets ficam obsoletos. Ou não. Meramente são trocados graças ao lançamento de um novo modelo e o poder de persuasão do Marketing, fazendo aposentar o “antigo”.

Que destinação terá o anterior?

Quantas vezes você e/ou as pessoas ao seu redor compram coisas apenas porque o mundo inteiro as tem?

É importante discernir que não se pretende fazer uma caça às bruxas. Não é tampouco uma questão de demonizar o que de fato pode trazer muitos benefícios à humanidade. Não se nega aqui o que há de bom associado à IA, a Internet das Coisas, a própria Internet ou qualquer coisa que esteja vinculada.

As pessoas precisam estar cientes que há um preço – o qual muitas vezes não está evidente – quando usufruem de muitas dessas tecnologias.

Muita gente não se dá conta do que envolve o simples ato – tão comum – de instalar um app no celular. Há até entre os mais esclarecidos, os que não sabem.

Exemplos concretos dos perigos, já existem e não é de hoje.

Em 2016, um carro do serviço Uber sem motorista, passou um sinal vermelho, sem maiores consequências. Lamentavelmente em outro episódio envolvendo a mesma empresa, uma mulher nos EUA foi uma vítima fatal da mesma tecnologia.

Na mesma linha a Tesla, conhecido fabricante do qual Elon Musk é proprietário, sofre processo por outro acidente fatal.

Em uma situação que aparentemente representa menos risco, um perfil no Twitter, usado pelo que parecia ser uma adolescente, mas que na verdade é Tay, um sistema de IA desenvolvido pela Microsoft para interagir na rede social, tal como uma pessoa, criou postagens com mensagens de ódio, racismo e nazismo!

E até mesmo o robô Sophia, que em uma conversa com seu criador, revelou que gostaria de destruir os humanos.

Já há muitos casos e que envolvem questões “simples” como o cancelamento de uma carteira de motorista, pelo reconhecimento facial equivocado, associando-o a um criminoso, ou o cancelamento de benefícios em planos médicos de idosos carentes ou até o caso de um suicídio de uma esposa, a cujo esposo foi erroneamente atribuído o pagamento de uma pensão alimentícia no valor de US$ 206.000,00 e que constam dessa matéria na Wired.

E se o que estiver em questão for um diagnóstico médico? Você vai depositar o seu futuro e as decisões nele envolvidas a você mesmo, a outro humano em quem confia ou a uma máquina?

A IA, a máquina, o algoritmo, não esquece! Ela fará o que foi programada para fazer, sem emoções, sem considerações, sem limites éticos ou morais, sem saber quem você é, o que precisa, o que pensa, apenas considerando números e regras.

Conclusão

A Inteligência Artificial desponta como o advento que veio para revolucionar e trazer avanços antes impensados, mas o que ninguém costuma falar, são as implicações, as consequências e os problemas, especialmente os desdobramentos éticos e os interesses envolvidos. É preciso urgentemente discutir e estabelecer parâmetros e limites do que ela pode fazer por nós.

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