Conhecendo a linguagem Perl em 12 perguntas e respostas

Se você está pensando em investir tempo e esforços no aprendizado de uma nova linguagem e ao fazer algumas pesquisas esbarrou na linguagem Perl, é provável que tenha várias perguntas cujas respostas nem todo mundo dá logo de cara.

Isso porque diferente de muitas das mais populares, a comunidade em torno do Perl não é de fazer propaganda apesar das suas reais qualidades.

Quer entender o que é, onde se sobressai, se é para você, entre outras possíveis dúvidas? Então vem com a gente e descubra se vale a pena se dedicar a ela.

O que é Perl?

Criada no final dos anos 80 por Larry Wall, um linguista de formação, a linguagem Perl (acrônimo de Practical Extraction and Report Language) carrega essa influência no seu DNA, ou seja, o seu propósito inicial era de oferecer soluções eficientes para processamento de texto em sistemas baseados em Unix, o que até então exigia diferentes ferramentas, como o AWK, sed, C e diversas linguagens de shell script.

Inspirado por sua formação, Larry aplicou à programação um princípio das línguas humanas: a possibilidade de dizer uma mesma coisa de diferentes maneiras e o contexto ajuda a definir qual expressão é mais adequada.

Em termos práticos, a linguagem de programação Perl reuniu as principais qualidades das ferramentas até então usadas:

  • O poder das expressões regulares usadas no sed (utilitário de linha de comando no Unix/Linux utilizado para analisar, filtrar e transformar textos de maneira automatizada e não interativa);

  • A eficiência na identificação de padrões de AWK (ferramenta de linha de comando baseada no Unix, especializada no processamento, extração e manipulação de arquivos de texto estruturados);

  • A profundidade e a já conhecida sintaxe da linguagem C;

  • A sintaxe e a marcação das mais populares linguagens de shell script.

Embora inicialmente com limitações, o Perl logo se tornou a “queridinha” dos administradores de sistemas e se popularizou por conseguir em poucas linhas o que outras linguagens faziam com páginas e páginas de código.

A ideia era simples. Em vez de ter que contar com uma caixa de ferramentas, onde cada uma tem um propósito específico, o Perl se propunha a ser uma espécie de “canivete suíço”. Ela não foi feita para ser a melhor ferramenta para um único trabalho, mas sim resolver pequenos problemas variados do dia a dia.

Assim, da mesma forma que um canivete pode abrir uma lata de sardinha ou apertar um parafuso solto dos seus óculos, o Perl consegue tanto automatizar tarefas simples quanto sustentar sistemas gigantescos e prova disso é que alguns dos sites mais populares do mundo já tiveram Perl rodando nos bastidores em algum momento.

12 perguntas e respostas sobre Perl

Hoje, o Perl continua sendo uma ferramenta versátil e poderosa, mantida por uma comunidade que prefere gastar energia resolvendo problemas em vez de se envolver em discussões sobre qual linguagem é melhor – o que não faz muito sentido – ou porque você deveria usá-la.

Logo, se você quer entender melhor tudo o que ela pode entregar e decidir objetivamente se ela fará parte da sua bagagem profissional, veja as respostas às dúvidas mais frequentes.

1. Por que o Perl é chamado de uma família de linguagens?

Durante muito tempo, existiu apenas o Perl "original", que hoje chamamos de Perl 5 (quinta grande revisão da linguagem de programação). Lançada em 1994, essa “versão” foi um sucesso absoluto, especialmente entre os anos 1990 e 2000, e continua sendo atualizada até hoje (a versão estável mais recente é a 5.42.0, lançada em 3 de julho de 2025).

O problema é que, com o passar dos anos, a comunidade percebeu que algumas coisas no Perl 5 poderiam ser melhores, mas isso significaria fazer mudanças que poderiam “quebrar” os programas antigos baseados em versões anteriores, algo que ninguém queria.

Foi aí que, no ano 2000, Larry Wall (o criador) propôs um desafio: "E se a gente criasse um Perl completamente novo, sem a preocupação de manter compatibilidade com o antigo?" .

Assim nasceu o projeto que inicialmente se chamou Perl 6. A ideia era que fosse o futuro da linguagem, mas o tempo passou, o desenvolvimento se estendeu por mais de uma década, e o Perl 6 foi se distanciando tanto do Perl 5 que, em 2019, ganhou um nome próprio – Raku.

Hoje, Perl 5 e Raku compartilham a mesma origem, são da mesma "família", e quem conhece um consegue perceber claramente laços em comum, ainda que cada um tenha seguido seu caminho, tenha sua própria personalidade, suas regras e suas comunidades de desenvolvimento independentes.

Por isso que se diz que além de uma família de linguagens, são duas linguagens de programação que coexistem, mas com identidades próprias.

2. Quais as vantagens de usar Perl?

As vantagens de programar em Perl são muitas, e algumas delas explicam por que tanta gente que conhece a linguagem simplesmente não larga. Vamos às principais:

  1. Canivete suíço que cabe no bolso – foi feito para ser prático. Precisa extrair informações de um arquivo gigante, gerar relatórios, processar dados de um formulário Web ou automatizar tarefas repetitivas? Perl resolve tudo isso em poucas linhas;

  2. Rei do processamento de texto – se o seu trabalho envolve lidar com textos, logs do sistema ou dados não estruturados, o Perl é praticamente imbatível. Suas expressões regulares são tão poderosas que poucas linguagens chegam perto;

  3. Acervo de módulos mais completo (CPAN – Comprehensive Perl Active Network) – mais de 25 mil módulos prontos feitos pela comunidade. Precisa integrar com banco de dados, criar um site ou processar imagens? Alguém já resolveu esse problema antes de você;

  4. Roda em qualquer lugar – não importa o sistema operacional (Windows, Linux, Mac, Unix), sendo que em ambientes Unix, já vem instalado de fábrica;

  5. Maduro e estável – o código escrito há 20 anos provavelmente ainda roda hoje, sem surpresas ou sustos, mas acima de tudo, com incrível estabilidade;

  6. Gratuito e de código aberto – use, estude, modifique e distribua sem pagar nada, resultado de ser open source e gratuito. Além disso, os eventuais bugs são corrigidos pela comunidade, não por um departamento de suporte;

  7. Amigável com outras linguagens – integra-se com C, C++, conversa com bancos de dados (MySQL, PostgreSQL, Oracle) e entende HTML, XML e outros formatos;

  8. Feito para ser seguro – conta com um modo especial (taint mode) que “desconfia” de dados vindos de fora e obriga você a tratá-los previamente;

  9. Rápido para criar e entregar – não perca tempo gerenciando memória ou declarando tipos de variáveis. O foco vai todo para resolver o problema;

  10. Comunidade ativa – a comunidade se concentra na resolução de problemas, na criação de novos módulos e prestando ajuda a quem precisa, em vez de promoção e “defesa” da linguagem.

3. Quais as desvantagens de programar em Perl?

Prometemos que da mesma forma que a comunidade, seríamos objetivos e transparentes ao falar da linguagem e, portanto, nem tudo são flores se você escolher o Perl para programar:

  1. Curva de aprendizado – a flexibilidade que é seu ponto forte também pode ser um obstáculo para quem está começando. A sintaxe permite tantos caminhos diferentes que pode confundir iniciantes acostumados com linguagens mais "engessadas";

  2. Código "só de escrita" – refere-se a uma piada antiga na comunidade e contém uma ironia para descrever os scripts extremamente concisos, densos e enigmáticos, difíceis de entender ou de fazer manutenção posteriormente, mesmo pelo autor original;

  3. Legibilidade em projetos grandes – em um script pequeno, a liberdade é ótima. Num sistema com dezenas de programadores, cada um escrevendo do seu jeito, o código pode virar um “Frankenstein” difícil de manter. No entanto, existe o comando use v5.36 (ou superior) que já habilita recursos modernos (como signatures em funções), reduzindo muito aquela aparência de "código bagunçado";

  4. Performance mais modesta – por ser uma linguagem interpretada, Perl perde para linguagens compiladas como C ou Rust. Para a maioria das tarefas do dia a dia (processar textos, administrar sistemas) isso não faz diferença, mas em sistemas onde o desempenho é essencial, não é a melhor escolha;

  5. Menos popular que antes – embora já tenha sido o queridinho da Internet, hoje o Python, o Ruby e o JavaScript fazem mais sucesso. Na prática, significa menos vagas de emprego, menos tutoriais novos e uma comunidade que encolheu;

  6. Ecossistema menor para aplicações modernas – embora o CPAN seja gigante, em áreas como desenvolvimento Web moderno ou aplicativos mobile, oferece menos opções atualizadas do que outras linguagens;

  7. Gerenciamento de memória – em sistemas críticos onde cada byte conta, não é a linguagem mais indicada, pois o seu mecanismo automático de gerenciamento de memória (garbage collector) não é dos mais eficientes;

  8. Questões de segurança – a mesma flexibilidade que permite escrever código rápido também abre brechas se o programador descuidar de boas práticas. Ataques como injeção de código podem acontecer se os dados não forem devidamente tratados (o taint mode, que mencionamos nas vantagens);

  9. Sintaxe incomum – para quem vem de outras linguagens os símbolos ($, @, %) na frente das variáveis podem assustar quem está acostumado com Python ou Java, ou seja, exige adaptação;

  10. Documentação não amigável – existe sim muita documentação, mas ela é frequentemente descrita como enciclopédica em vez de didática. Você encontra o que fazer, mas nem sempre como fazer da melhor maneira.

4. Perl ainda é relevante?

Se você pesquisar sobre Perl em fóruns ou redes sociais, vai encontrar opiniões para todos os gostos. Tem quem jure que a linguagem morreu nos anos 2000. Tem quem diga que só vive de sistemas legados. E tem quem garanta que é a melhor ferramenta para o que faz.

Mas opinião todo mundo tem a sua, não é? Por isso, vamos a alguns fatos:

  • Os números – em fevereiro de 2026, Perl saltou 19 posições no índice TIOBE, chegando ao 11º lugar. Foi a linguagem que mais cresceu no ranking, voltando ao top 20;

  • Continua recebendo atualizações – a versão 5.42 foi lançada em meados de 2025, seguindo o cronograma dos últimos 12 anos de versões estáveis anuais e correções trimestrais. 64 desenvolvedores participaram, alterando 280 mil linhas de código;

  • A comunidade – eventos presenciais acontecem regularmente na América, Europa e Ásia. A CosmoShop (grande sistema de lojas virtuais em Perl) patrocinou o workshop alemão de 2026. Comunidade que banca encontro não costuma apostar em linguagem morta;

  • Está em toda parte – mesmo onde você não vê, como em sistemas financeiros, processamento de logs, infraestrutura de grandes empresas, legado da Internet (Amazon, IMDb, Booking.com usaram Perl por anos). Muito do que funciona hoje, tem Perl por baixo;

  • Adaptou-se aos novos temposChatGPT e Copilot entendem Perl perfeitamente. Já existem projetos como PerlGPT sendo construídos para integrar a linguagem com inteligência artificial. O "canivete suíço" continua se reinventando.

5. Perl é usada em IA?

Sim, mas do “jeito dela” e com ressalvas.

Perl não é a primeira linguagem que vem à cabeça quando se fala em IA, mas isso não significa que ela esteja de “fora do jogo”.

Enquanto o Python lidera o desenvolvimento de novos modelos, o Perl entra em cena de outro jeito:

  • Integração com serviços de IA – dá para usar Perl para “conversar” com APIs da OpenAI, Claude e outros serviços modernos. Na prática, você pode escrever um script em Perl que manda perguntas para o ChatGPT e recebe as respostas de volta, integrando inteligência artificial aos seus sistemas;

  • Biblioteca para machine learning – existem módulos no CPAN para quem precisa de coisas mais específicas, como árvores de decisão ou modelos de máxima entropia. Não é algo para iniciantes, mas para quem já entende do assunto, as ferramentas existem e funcionam;

  • Integração – sua maior qualidade é a integração de recursos de IA a sistemas já existentes. Se você tem um sistema legado em Perl e quer adicionar uma camada de inteligência (classificar textos, analisar dados, conversar com um chatbot), é perfeitamente possível e, em muitos casos, mais prático do que reescrever tudo em outra linguagem;

Em resumo, se a sua pergunta é: "Perl é a melhor escolha para começar em IA?", certamente não. Mas para quem já tem experiência com a linguagem e quer incrementar os seus sistemas, ela consegue resolver várias questões.

6. Para quais usos ela é mais indicada?

Se o seu trabalho em programação envolve alguma das situações a seguir, o Perl provavelmente será a melhor escolha:

  • Processamento de texto – esse é o seu habitat natural, lembrando que foi para isso que nasceu. Arquivos de log, relatórios, dados não estruturados, extração de informações, bem como tarefas que envolvem encontrar padrões, substituir palavras, filtrar linhas, são feitas com sucesso com uma fração da programação necessária em outras linguagens;

  • Administração de sistemas – considerado o amigo número 1 dos administradores de servidores, quando o assunto é automação de tarefas, gerenciamento de arquivos, monitoramento, backups, scripts de manutenção. Se existe repetição recorrente, o Perl automatiza com eficiência;

  • Integração com bancos de dados – conversa com MySQL, PostgreSQL, Oracle, SQLite e outros bancos de dados, sem a necessidade de “malabarismos”. O DBI (Database Interface) é um dos módulos mais maduros e confiáveis que existem para acesso a dados;

  • Desenvolvimento web – embora não seja a “estrela” do momento, existem frameworks modernos como Mojolicious, Dancer2 e Catalyst que permitem criar sites e aplicações web respeitáveis, incluindo recursos como WebSockets e APIs;

  • Programação de rede – o Perl tem módulos que simplificam a vida para quem precisa fazer integração em redes de computadores (sockets, comunicação entre sistemas, clientes e servidores);

  • Bioinformática – por lidar muito bem com sequências genéticas, que no fundo são textos longos, o Perl se tornou ferramenta comum entre pesquisadores da área;

  • Prototipagem rápida – precisa testar uma ideia, validar um conceito ou criar uma prova rápida? A concisão da linguagem facilita dispor de um protótipo funcionando de modo muito fácil e rapidamente;

  • Processamento de dados e relatórios – extrair informações de arquivos enormes, gerar resumos, cruzar dados, transformar formatos (CSV, JSON, XML), ou seja, a manipulação de dados é um dos seus talentos;

  • Interoperabilidade de sistemas – precisa fazer dois sistemas diferentes conversarem? Essa linguagem é excelente para fluência de dados entre aplicações, bancos e APIs;

  • Manutenção de sistemas legados – muitas empresas grandes ainda rodam código Perl escrito há anos. Se você domina a linguagem, tem vaga garantida onde os outros não conseguem entrar.

7. O que eu preciso para programar em Perl?

Se para desenvolver em PHP, você tem o XAMPP que já entrega tudo pronto, o Perl tem um caminho semelhante, mas com algumas diferenças.

A boa notícia é que começar é mais simples do que parece.

  • O interpretador Perl (a base de tudo) – é o “coração” da coisa. Sem ele, nada acontece. Se você usa Mac ou Linux, ele já vem instalado. No Windows, você precisa instalar;

  • Para WindowsStrawberry Perl ou ActiveState Perl são as duas distribuições mais populares que já trazem o interpretador + um monte de módulos úteis.

    • Strawberry Perl – é a “queridinha” da comunidade, completa e gratuita;

    • ActiveState Perl – também é muito usada, mas principalmente em ambientes corporativos.

  • Um editor de texto – como Perl é uma linguagem de script, você só precisa de um editor de texto puro para escrever o código. Pode ser o Bloco de Notas? Tecnicamente sim, mas não vai ser agradável.

    • Opções levesNotepad++ (Windows), Sublime Text, Gedit (Linux);

    • Opções para quem já programa – VS Code (com extensões para Perl), Vim, Emacs.

  • Um IDE – para projetos maiores, vale considerar um ambiente integrado:

    • Padre – foi escrito em Perl para Perl. É leve e feito pela comunidade;

    • Eclipse + EPIC – para quem já vem do mundo Java e quer um ambiente familiar;

    • Komodo IDE – Opção comercial, mas muito completa.

  • O CPAN (a estante de módulos) – não é um programa que você instala, mas um repositório no qual você terá acesso a milhares de módulos prontos via comando cpan. É tipo um "app store" da linguagem.

E o "Hello World"?

Depois de instalado, é só criar um arquivo teste.pl com o conteúdo print "Olá, mundo!\n"; e rodar no terminal com perl teste.pl.

Pronto, você já está programando em Perl!

8. Perl é uma linguagem difícil de aprender?

A resposta mais honesta, é: Depende.

Se você está começando do zero, talvez. Se já programa em outras linguagens, a resposta envolve ter alguns pontos em mente:

  • A fama vs a realidade – muita gente ouve falar que Perl é "só de escrita" e que o código parece "linha de comando bagunçada". Sim, Perl permite escrever código ilegível. Mas você não é obrigado a fazer isso. Dá para escrever Perl tão limpo quanto Python ou outras linguagens;

  • Os símbolos assustam – aqueles caracteres ($, @, %) na frente das variáveis parecem estranhos para quem vem de Python ou Java, mas têm uma lógica e ajudam a entender o código em vez de atrapalhar:

    • $ para coisa única (um número, um texto);

    • @ para listas (várias coisas);

    • % para pares (chave + valor)

  • Muitos caminhos – a filosofia TIMTOWTDI (There Is More Than One Way To Do It) ou “mais de um jeito de fazer”, é libertadora para quem já sabe programar, mas pode ser paralisante para iniciantes. "Como é o jeito certo de fazer isso?". Em Perl, muitas vezes não existe um só jeito “certo”;

  • Mais fácil do que parece – para tarefas simples – ler um arquivo, extrair informação, gerar uma saída – o Perl é extremamente direto e menos burocrático do que em outras linguagens, até fazendo parecer que falta alguma coisa;

  • Evolução – o verdadeiro desafio de Perl não é começar, mas dominar. A linguagem tem várias camadas. Você pode programar nela durante anos e ainda descobrir recursos novos. Mas ninguém te obriga a usar todos de uma vez;

  • Material de estudo – existe documentação de sobra, mas nem sempre organizada de forma didática. O livro "Learning Perl" (conhecido como "Livro da Lhama") é o ponto de partida clássico. Depois dele, "Programming Perl" (o "Livro do Camelo") aprofunda;

  • A comunidade ajuda – existem comunidades ativas no Reddit, Stack Overflow e grupos de discussão. O pessoal costuma ser acolhedor, especialmente com quem demonstra que tentou antes de perguntar.

Em termos práticos e na maior parte dos casos, se você é um iniciante em programação, a linguagem pode ser um caminho mais acidentado. A liberdade excessiva pode confundir. Linguagens mais "engessadas" costumam ser mais didáticas para quem está aprendendo a lógica.

Já para os programadores experientes, aprender Perl é perfeitamente tranquilo. A sintaxe diferente exige adaptação, mas os conceitos são os mesmos.

9. Perl é boa para desenvolvimento Web?

Sim, e tem mais estrutura do que você imagina.

Quando o assunto é desenvolvimento Web, Perl não é o primeiro nome que vem à cabeça, mas tem um ecossistema maduro e frameworks modernos que entregam resultados profissionais.

  • CGI (o avô da Web dinâmica) – entre os anos 90 e 2000, Perl era “a linguagem” para sites dinâmicos. O CGI (Common Gateway Interface) rodava em basicamente todo servidor e foi usado por gigantes como Amazon nos primórdios. Ainda funciona, mas hoje existem opções mais modernas;

  • Frameworks atuais e elegantes – a comunidade não parou no tempo. Hoje você encontra:

    • Mojolicious – framework moderno, estilo Ruby on Rails, mas sem dependências externas. Tem WebSockets, testes integrados, clientes HTTP e suporte a JSON. Faz muito sucesso;

    • Dancer2 – minimalista, inspirado no Sinatra (Ruby). Leve, elegante, perfeito para APIs e aplicações menores;

    • Catalyst – é framework veterano, bastante robusto e mais estruturado, com conceitos parecidos com Rails ou Django. Indicado para aplicações grandes e complexas.

  • Bancos de dados sem complicação – o DBI (Database Interface) é um dos módulos mais maduros do Perl, oferecendo integração com MySQL, PostgreSQL, SQLite e outros bancos, de forma simples, confiável e testada por décadas;

  • Modelos e views organizados – dá para trabalhar com Template Toolkit (separação de HTML do código) e ORMs, como DBIx::Class, que trazem conceitos modernos para quem quer seguir padrões como MVC;

  • APIs e serviços modernos – o Perl lida muito bem com JSON, XML, REST e WebSockets. O Mojolicious tem cliente HTTP embutido e facilita utilizar diferentes APIs;

Em resumo, se você já tem sistemas em Perl e quer colocar uma interface Web, se precisa de algo enxuto que rode em qualquer servidor sem instalar 50 dependências, ou se valoriza estabilidade e desempenho, Perl web é uma escolha confiável e eficiente.

10. Como Perl se compara com Python para tarefas de sysadmin e processamento de texto?

Tem sido comum comparar o Perl com o Python em alguns cenários, especialmente porque a segunda linguagem tem ganho cada vez mais adeptos.

Honestamente, ambas fazem coisas parecidas, mas com filosofias diferentes.

No processamento de texto:

  • Perl leva vantagem – lembrando que nasceu para isso! Expressões regulares estão no DNA da linguagem e não exigem uma biblioteca dedicada. Para tarefas como "extrair tudo que parece um endereço d e-mail deste arquivo e gerar um relatório", Perl faz em poucas linhas de forma natural;

  • Python também resolve – existem bibliotecas poderosas (re, regex), mas a sintaxe é mais verborrágica. O que em Perl é um "//", em Python vira algumas linhas a mais. Resolve, mas não com a mesma elegância.

Na administração de sistemas, podemos dizer que há empate técnico, pois ambas as escolhas são excelentes. Python tem vantagem em integração com ferramentas modernas de automação (Ansible usa Python). Perl tem vantagem em estar em toda parte, especialmente em sistemas Unix, onde já vem instalado.

Já em questões que envolvem scripts de manutenção, automação de backups, monitoramento, manipulação de arquivos, o Perl já faz isso há mais de 30 anos e tem módulos para tudo e, quando dizemos tudo, é TUDO MESMO!

11. Preciso saber programar em C para aprender Perl?

Esse é um mito comum, mas sem fundamento. Portanto, já adiantamos que não, não é necessário conhecer a linguagem C!

Vamos direto aos pontos:

  • Perl não exige conhecimento de C – você aprende Perl sem nunca ter escrito uma linha em C na vida;

  • Confusão vem da história – é verdade que o interpretador Perl é escrito em C. Assim como o interpretador Python também é (Cpython), o que não o obriga a conhecer C para programar em Python;

  • A sintaxe lembra C – o Perl “pegou emprestados” alguns símbolos e estruturas do C, como o ponto e vírgula no final das linhas e as chaves para blocos de código. Mas é uma linguagem de muito mais alto nível. Você não gerencia memória, não declara tipos, não se preocupa com ponteiros, como no C;

  • Facilidade adicional – quem já programa em C vai se sentir em casa com certos detalhes, como as chaves e a sintaxe de loops. Mas isso é um "bônus", não uma necessidade.

A única exceção – e é bem específica – é que se você quiser modificar o interpretador Perl ou escrever extensões em C que rodem dentro do Perl, aí sim vai precisar de C. Mas isso é para menos de 1% dos programadores Perl.

12. Perl é uma boa escolha para iniciantes em programação?

De modo geral, a resposta tende mais para o "não" do que para o "sim", pelos seguintes motivos:

  • A liberdade pode confundir – a já mencionada filosofia TIMTOWTDI (There Is More Than One Way To Do It) é ótima para quem já sabe programar, mas para um iniciante pode ser confusa e paralisante. Quando você está aprendendo lógica, ter “vários jeitos certos de fazer” a mesma coisa, mais atrapalha do que ajuda;

  • A sintaxe tem peculiaridades – os símbolos ($, @, %) na frente das variáveis têm lógica, mas exigem que o iniciante compreenda conceitos que ele ainda não está acostumado e antes de conseguir fazer coisas simples. Em Python, uma variável é só um nome. Em Perl, você precisa saber se é escalar, lista ou hash;

  • O código de terceiros – como a linguagem permite escrever de forma muito compacta, ao se deparar com códigos antigos de terceiros, que podem parecer apenas uma “linha de comando bagunçada”, terá dificuldade em compreender o que faz;

  • Material didático – existem ótimos livros – como o já mencionado "Livro do Camelo" – mas tutoriais para iniciantes absolutos são mais difíceis de encontrar do que para Python. A documentação é enciclopédica e pouco didática;

  • Comunidade menor – se você tiver dúvidas, vai encontrar ajuda de uma comunidade acolhedora, mas menos gente disposta a “segurar a mão” de um iniciante do que nas comunidades de Python ou JavaScript.

Conclusão

O Perl pode não ser a "estrela" do momento como o Python, mas sua robustez e eficiência em manipular dados e automatizar sistemas são inquestionáveis. Se você busca uma segunda linguagem que ofereça liberdade, maturidade e um ecossistema gigantesco como o CPAN, vale o investimento. O importante é manter o código limpo e aproveitar o poder do canivete suíço. Que tal rodar o seu primeiro script hoje?

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