Bolha da IA, o que é, como surgiu e quais seus impactos?

Entre as principais dúvidas que as pessoas têm sobre um dos temas mais falados da atualidade, vem ganhando atenção um ponto que preocupa, especialmente os mais empolgados com o assunto – a bolha de IA!

Se como muitos, você não sabe bem o que é, qual a sua origem, o que pode acontecer quando ela estourar, bem como outras questões relacionadas, a gente promete esclarecer tudo isso.

Pronto para o bate-papo?

O que é a “bolha de IA”?

A chamada bolha de IA – tal como outras bolhas – é uma condição na qual o mercado das empresas de inteligência artificial apresenta fortes indícios de insustentabilidade futura (no médio ou longo prazo) e tem elevada probabilidade de colapsar ou de estourar em algum momento.

Esse não é um fenômeno novo e no século XXI já vimos pelo menos duas outras que deveriam servir de lição – a bolha imobiliária de 2008 (também conhecida crise do subprime) e a bolha da Internet de 2000 (também chamada de bolha das empresas “pontocom”).

Na primeira, houve a concessão maciça e acelerada de crédito para compra de imóveis, inclusive para pessoas com histórico negativo de pagamentos (subprime) e o valor dos imóveis subiu, sustentado por esses empréstimos de alto risco. Em paralelo, os bancos transformaram esses empréstimos em títulos financeiros vendidos globalmente, “contaminando” o sistema financeiro. O colapso veio em setembro de 2008, com a falência do Lehman Brothers e intensificou a crise.

Já a segunda bolha se caracterizou por grandes aportes de dinheiro por parte de investidores (venture capital) e a valorização exagerada das ações de empresas ligadas à Internet e tecnologias que prometiam serem inovadoras (as chamadas empresas “pontocom”). Startups com modelos de negócio baseados na Internet surgiram em massa, muitas sem lucros ou planos sustentáveis. O índice da bolsa eletrônica de Nova Iorque (NASDAQ) disparou, chegando a mais de 5.000 pontos em março de 2000, antes de despencar quando as promessas não se concretizaram.

Ou seja, da mesma forma que foi nesses ilustres casos, os especialistas vêm apontando exageros, expectativas muito infladas (um verdadeiro hype) e há até quem diga que a inteligência artificial conceitualmente nem é de fato inteligência e, portanto, não será capaz de entregar tudo o que vem sendo prometido.

Vamos entender melhor isso?

Por que a IA também é considerada uma bolha?

A inteligência artificial generativa (LLMs como ChatGPT, Copilot e Gemini) propriamente não é uma bolha, mas boa parte do que vem sendo dito a seu respeito, da mesma forma que as bolhas de sabão, que podem interessantes, atrair atenções, não duram para sempre. Na verdade, há a certeza de que em algum momento estourarão.

São alguns os fatores e semelhanças com fenômenos semelhantes que permitem afirmar que estamos diante de uma nova:

  • Estima-se que o setor de IA recebeu mais US$ 200 bilhões em aportes ao longo de 2025, alta de 75% em relação ao ano anterior;

  • Analistas do Morgan Stanley projetam que os gastos globais com IA devem alcançar em torno de US$ 3 trilhões (cerca de 10% do PIB dos EUA em 2025!), divididos em

    • Data centers – na construção e expansão de infraestrutura física;

    • Hardware avançado – memórias e GPUs de última geração (Nvidia);

    • Financiamento – cerca de metade desse montante deve vir de crédito público e privado.

  • O mesmo Morgan Stanley revela serem necessários vários anos para monetizar a infraestrutura de IA que vem sendo construída;

  • Um estudo do MIT publicado em 2025, revelou que cerca de 95% das empresas que investiram em inteligência artificial generativa ainda não obtêm retorno financeiro significativo. Apenas uma pequena parcela (aproximadamente 5%) conseguiu acelerar receita ou ganhos concretos;

  • A grande maioria das empresas operam no vermelho, mas ainda assim crescem muito e rapidamente, graças aos maciços aportes de dinheiros dos investidores. A ideia é primeiro se agigantar e ganhar visibilidade e confiança do mercado, para depois lucrar. Funcionou na bolha da Internet e está funcionando nessa;

  • Há montes de startups que “pegaram carona” nessa empolgação, mas com falhas básicas e fundamentais nos seus modelos de negócio e, portanto, naufragarão;

  • Muitos dos principais modelos atraem a atenção com promessas e gratuidade para experimentar, mas a retenção – que é o que garante o pagamento das contas – é baixíssima. Os maiores e melhores não conseguem 3% de usuários pagantes;

  • São muitos os casos de startups que apenas se apoiam em discurso convincente e uma proposta ousada, mas que não passam de soluções elegantes e interfaces chamativas, que prometem resolver problemas que poucos ou ninguém tem. Há muitas “soluções” genéricas e “outras são puro Marketing”, ou se preferir uma expressão da moda, apenas tem “sabor de IA;

  • Os altos custos da infraestrutura de IA – detalhados no post “O impacto oculto da IA: o custo real de cada pergunta” – que em maior ou menor grau, direta ou indiretamente, todos pagamos;

  • Especialistas e cientistas da área, como o renomado e respeitado Miguel Nicolelis, são enfáticos ao afirmar que essa IA generativa não pode ser de fato considerada como tal e, portanto, não entregará tudo o que vem sendo prometido. Já havíamos feito alerta semelhante ainda em 2023, em nosso post “Como criar conteúdo para sites na era da Inteligência Artificial?”.

Ou seja, embora alguns aspectos pareçam diferentes, na prática se assemelham em princípio ao que levou às bolhas anteriores.

Como a bolha está se formando?

É preciso entender o contexto e as variáveis que permitiram que essa nova bolha esteja se formando, afinal os investidores, os que apostam no sucesso da inteligência artificial não são ingênuos, não são tolos, nem estão dispostos a investir em promessas vazias.

A questão não é simples e cristalina, o que dificulta enxergar claramente o que está acontecendo:

  • Especulação econômica – como qualquer uma, são construídas narrativas visando elevar o valor das marcas, das empresas, no mercado de ações e aqueles que entram no começo desse movimento e sabem sair no momento certo, ganham;

  • Retrospecto – há um bom punhado de Big Techs, de CEOs bem-sucedidos e com muito dinheiro no bolso, investindo verdadeiras fortunas em uma tecnologia que segundo eles, revolucionará o mundo moderno! São convincentes no seu discurso e seu retrospecto passado dá credibilidade ao que dizem;

  • Lucro – a IA visa lucro e remover o trabalho humano, que é um dos maiores custos da atividade produtiva. Essa promessa de elevada maximização do lucro, soa como música para o capitalismo;

  • Tecnologia – os avanços e a evolução da tecnologia, especialmente por parte de alguns dos principais envolvidos (Google, Meta, Amazon, Microsoft, etc), funciona como um aval para garantir que IA é de fato inteligência e em vez de ser apenas mais um “algoritmo anabolizado”. Em outras palavras, é factível – especialmente para o leigo – acreditar que no atual estágio tecnológico existe conhecimento suficiente para criar IA de verdade;

  • Prática – tudo isso acima, ganha ainda mais credibilidade quando funcionam as engrenagens e a robusta infraestrutura por trás dos grandes modelos de linguagem e alguns segundos após um prompt, o chat devolve uma resposta. As pessoas não sabem o que é, não sabem como funciona e, por isso, acham que a IA é inteligente.

No entanto, estamos nos aproximando de um momento decisivo, no qual agora se exige que a IA de fato prove que ela é de fato capaz de fazer tudo o que as empresas por trás delas dizem que elas são capazes. Mais do que isso, logo vai acabar a paciência de quem acreditou nas promessas e vão querer ver o retorno de cada dólar investido.

Quais os impactos quando a bolha estourar?

Não é nosso objetivo brincar de prever o futuro, tampouco criar pânico, porém é fato que toda bolha quando estoura, traz grandes prejuízos. Foi assim com as bolhas das pontocom e do subprime.

Também como aconteceu naqueles casos, nenhum bilionário que agora coloca seu nome como aval para os imensos investimentos feitos, ficará na miséria.

Quando a bolha acaba estourando, leva consigo as economias de uma vida inteira de pessoas comuns que apenas acreditaram na promessa de que poderiam ter uma aposentadoria mais tranquila e dos pequenos e médios empreendedores que pensavam que podiam prosperar.

E não, não estamos afirmando que as tecnologias envolvidas são irrelevantes ou são pura enganação. Não confunda as coisas!

No final de tudo, o que sobrar desse hype, vai garantir maior automatização, algum ganho de eficiência em algumas atividades e serviços online mais avançados. Aquelas empresas focadas em entregar soluções reais para as principais dores dos seus clientes, também devem sobreviver.

Mas os possíveis riscos são reais:

  • Colapso de instituições – falências e resgates bilionários de bancos e empresas de investimentos, especialmente os maiores e mais envolvidos nessa onda;

  • Desvalorização – muitas empresas que hoje estão vendo suas ações supervalorizadas, perderão milhões em valor de mercado rapidamente;

  • Aumento do desemprego – tal como ocorreu nas outras bolhas, muitos trabalhadores devem perder seus empregos, especialmente nos países onde mais se está investindo;

  • Fuga de capitais – os capitais voltados ao investimento produtivo, devem escassear e aumentar a busca pelos mercados mais estáveis e confiáveis;

  • Importações / exportações – por conta da desvalorização de algumas moedas, pela desconfiança generalizada e pela adoção de pacotes de estímulo e resgates financeiros para evitar colapso total, haverá queda no comércio internacional;

  • Queda da produção – o comércio mundial em desaceleração, levará a uma retração econômica global;

  • Intervenção estatal – os governos dos países mais afetados, devem adotar pacotes econômicos para tentar conter ou minimizar os efeitos do estouro da bolha;

  • O "Inverno da IA" – além da crise financeira, o estouro pode gerar um descrédito na tecnologia. Investimentos em pesquisas sérias e importantes (ex: saúde, ciência e agronegócio) podem secar porque o mercado "pegou trauma" das narrativas vazias;

  • Concentração – quando a bolha estoura, as empresas pequenas somem e as gigantes (Google, Microsoft, Meta) compram o que sobrou a preço de banana, aumentando o monopólio do setor.

É importante enfatizar que o "estouro" não significa que a IA vai sumir, mas que ela vai deixar de ser "mágica" para virar apenas um avanço tecnológico importante, mais realista e que consegue entregar soluções eficientes. Quando a tempestade passa, vem uma nova fase mais madura e pé no chão, de menos discurso e mais modelos de negócios mais consistentes e que entregam soluções palpáveis.

Conclusão

O estouro da bolha da IA não será o fim da tecnologia, mas o fim da empolgação e deslumbramento. Assim como a Internet sobreviveu aos anos 2000, a IA deixará de ser uma promessa mágica para se tornar uma ferramenta utilitária. O desafio agora é separar o ruído do valor real. No fim, as empresas que resolverem problemas humanos sobreviverão, enquanto o "sabor de IA" evaporará com o mercado.

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