Dependência Digital e Nomofobia, sintomas e como evitar
A evolução tecnológica, especialmente em algumas áreas traz consigo muitos benefícios e melhorias nas vidas das pessoas e da sociedade de modo geral. Mas nem tudo são flores e se por um lado as vantagens são evidentes, algumas consequências têm causado preocupação, em especial quando o assunto é dependência digital ou nomofobia.
O que é? Você é afetado? Conhece quem seja?
Antes de prosseguirmos, é importante fazermos a ressalva que este artigo não tem a pretensão de ser um guia ou uma referência mesmo que rasa sobre o assunto, uma vez que até os profissionais considerados mais habilitados para tratar a questão, conseguem chegar a um consenso e os estudos e pesquisas ainda não são conclusivos.
De qualquer forma, o problema é real e por esta razão é importante darmos atenção e falarmos a respeito.
O que é dependência digital? O que é nomofobia?
Embora intimamente relacionadas, a dependência digital e a nomofobia não são sinônimos.
Resumidamente, a dependência digital é caracterizada quando o indivíduo começa a sofrer prejuízos na sua vida pessoal, social ou profissional, em função da necessidade – incontrolável na maioria das vezes – de utilizar os meios digitais e que normalmente ocorre de modo excessivo.
Já a nomofobia, é definida como o medo inconsciente de ser ver privado do aparelho celular ou de dispositivos eletrônicos similares.
Ou seja, o nomófobo é um “tipo” mais específico de dependente digital. Enquanto quem tem dependência digital geral satisfaz sua compulsão pelas tecnologias digitais usando um console ou notebook, o nomófobo sofre especificamente com a ausência do celular em si
Por sua vez, a pessoa que desenvolve nomofobia, quando impedida de usar seu smartphone, não raramente apresenta comportamentos similares aos dependentes químicos, que ao serem privados das substâncias viciantes, ficam irritados, ansiosos e até deprimidos.
Consequências da dependência digital
Qualquer que seja o caso, é frequente que o indivíduo comece a sofrer prejuízos diversos, como por exemplo:
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Produtividade – o dependente digital se torna um autêntico procrastinador, adiando tanto quanto possível suas tarefas profissionais e não dedicando a atenção necessária em detrimento do foco nos objetos do seu vício;
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Convívio social – os relacionamentos e o convívio social presencial, também costumam ser afetados, ganhando prioridade as interações virtuais nas redes sociais;
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Comunicação – a comunicação tende a ser afetada, tanto no âmbito pessoal quanto no profissional, muito em parte pela perda da capacidade de expressão verbal que vem dando lugar ao internetês, aos emogis e ao crescente abandono à gramática;
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Qualidade de vida – em vez de destinar o eventual tempo livre a atividades ao ar livre, aos passeios, esportes, reuniões com amigos e família, ele é totalmente consumido em frente a uma tela;
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Saúde física – a saúde física também vem sendo comprometida, seja pelo sedentarismo que normalmente acompanha o dependente, seja porque seus ciclos de sono, de alimentação e até os cuidados pessoais, são afetados pelo uso excessivo da tecnologia digital;
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Saúde mental – o uso excessivo também gera alterações cerebrais ligadas à busca por recompensa imediata (liberação de dopamina) e pode causar distúrbios diversos, como:
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Ansiedade e estresse – a constante atenção às notificações mantêm o cérebro em contínuo estado de alerta, dificultando o relaxamento e gerando angústia quando o indivíduo está desconectado;
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Dependência química do cérebro – os mecanismos de recompensa rápida – como curtidas e visualizações – ativam os mesmos circuitos neurais associados a outros tipos de vícios;
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Transtornos de imagem e autoestima – a superexposição constante a padrões estéticos considerados “perfeitos” e estilos de vida ideais, resultam em frustração e sentimentos de inadequação.
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E se os possíveis impactos negativos acima já não fossem suficientes para acender o alerta, há um contexto ainda mais preocupante, que é quando os envolvidos são as crianças e adolescentes, algo que o ECA Digital também tenta evitar.
Dependência digital é doença?
Esta é a pergunta mais frequente associada ao assunto, como também é um dos pontos mais polêmicos entre os que costumam gerar discussão.
Entre os especialistas no assunto, há divergências e em linhas gerais, há o grupo dos que defendem como sendo apenas um transtorno comportamental e como tal pode ser tratado no campo da psicologia e do outro lado há o grupo que classifica como uma patologia e sendo assim, objeto de estudo e tratamento da psiquiatria.
De modo geral, já há em muitos países iniciativas no sentido de tratar a questão com amparo profissional e muitas vezes até mesmo com medidas ativas do Estado, quando o problema é encarado como questão de saúde pública, visto que é consensual em ambas as correntes, os diferentes prejuízos para o indivíduo nos círculos familiares, sociais e profissionais nos quais ele está inserido.
Quais as causas da dependência digital?
Esse é um ponto bastante sensível dessa discussão, principalmente porque envolve interesses poderosos e modelos de negócio baseados no consumo frenético de produtos digitais e na Internet.
Apenas listar meia dúzia de possíveis causas, embora seja insuficiente, é o primeiro passo para pensarmos no que preciso ser feito para tratar as suas principais origens.
Eis algumas das principais causas:
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Redes sociais – no post “Redes sociais ou antissociais? A armadilha dos algoritmos”, discutimos como as redes têm cada vez mais se afastado do seu propósito e visado apenas o lucro;
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Influência digital – a responsabilidade da influência digital e como ela é exercida, é outro ponto que exige reflexão e medidas concretas;
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Engajamento – a busca desenfreada por engajamento como instrumento das estratégias de Marketing, funciona como importante estímulo à dependência digital;
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Algoritmos – os algoritmos da Internet visam tão somente capturar a atenção dos internautas e mantê-los ativos pelo maior tempo possível.
Quais os “sintomas” do dependente digital e do “nomófobo”?
Primeiramente é importante destacar algumas sutilezas que podem ser decisivas para se identificar se alguém é um dependente digital ou tem nomofobia e, conforme salientamos anteriormente, em face às divergências quanto aos diagnósticos, sempre se deve buscar um apoio especializado quando há indícios de que alguém possa estar sob uma condição ou a outra.
A primeira precaução que se deve tomar, é de não tipificar uma pessoa como dependente digital apenas pelo número de horas que ela está à frente do computador. Por vezes, esse é um comportamento necessário em função da atividade profissional, como é o caso de um nômade digital, ou simplesmente como resultado da transformação digital ocorrida nas rotinas profissionais, ou ainda como resultado de ações de empreendedorismo digital.
Mas é certo que na quase totalidade dos casos, o dependente digital passa boa parte do tempo que tem disponível à frente de dispositivos que permitem que ele tenha acesso à Internet, em suas mais diversas manifestações.
O sinal de alerta acende quando o uso se torna abusivo, compulsivo e caracterizado pela "necessidade" e pela "falta de controle". O dependente geralmente apresenta comportamentos como:
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Verifica a intervalos de tempo curtos e regulares se recebeu alguma notificação ou mensagem de e-mail;
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Checa se há atualizações nas postagens em suas redes sociais;
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Sentir urgência em responder imediatamente às interações feitas nas postagens nas quais está interagindo;
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Jogar diariamente, focando excessivamente em recompensas do jogo (como as "loot boxes");
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Navega a esmo por sites ou aplicativos, sem um objetivo definido, apenas sob o pretexto de “passar o tempo”;
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Perde compromissos ou se atrasa com frequência, pois perdeu a noção de tempo frente aos dispositivos;
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Tem dificuldade em ficar sem o celular ou de um dispositivo com acesso à Internet, mesmo que por períodos curtos de tempo;
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Não se importa de abrir mão de atividades presenciais e do convívio social, para ficar conectado;
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Queda no desempenho profissional ou escolar;
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Aumento da procrastinação ou esquecimento da realização de diferentes afazeres cotidianos;
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Incapacidade de abandonar o celular em reuniões, nas refeições e em outras interações com as pessoas;
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As rotinas, os hábitos e comportamentos são alterados em função do uso excessivo.
É verdade que muitos apresentam alguns desses comportamentos, mas quando a pessoa não pode atender a esta necessidade e, sobretudo, começa a ter reações como ansiedade, agressividade, desconforto físico e mental, irritabilidade e até mesmo depressão nas situações em que é privado do contato com os meios digitais, a dependência digital provavelmente se instalou.
Nos casos mais severos e evidentes, veem-se pessoas que abdicam de sair com os amigos, abrem mão de passeios e compromissos, brigam com seus parceiros, conversam menos e em condições extremas, até perdem o emprego por não conseguirem conter seu impulso por estar frequentemente com o celular à mão, visitando uma rede social ou em um aplicativo de comunicação.
Não é raro encontrar relatos de pessoas que ficaram dias sem se alimentar, tomar banho e até mesmo dormir, à frente do computador em jogos online. Há até os que ostentam certo orgulho por bater recordes de permanência online e tal dependência costuma estar à frente de outras necessidades básicas.
Tal qual acontece com dependentes de drogas e alcoólatras, há casos de usuários que apresentam sintomas físicos similares (síndrome de abstinência), quando são privados de utilizar seus dispositivos, como sudorese, taquicardia, alterações na respiração, entre outros sintomas e que é parte das justificativas que alguns estudiosos do assunto dão para a classificação da dependência digital como doença.
A questão é grave, mas especialmente no caso das crianças e jovens, o controle parental é essencial. O acompanhamento infanto-juvenil pautado em diálogo, observação e disciplina, ajuda a mantê-los distantes desse grave problema.
Como apoiar um dependente digital?
No Brasil, embora o debate público esteja crescendo e existam diretrizes de saúde voltadas para a saúde mental na era digital, o acesso a tratamentos especializados na rede pública ainda é um desafio.
O trabalho de referência mais estruturado no país é realizado pelo Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq – HCFMUSP). Por meio do Grupo de Dependências Tecnológicas, eles oferecem informações, pesquisas e triagens iniciais para ajudar a identificar o problema, como por meio da página Dependência Tecnológica.
Nos casos em que não se tem acesso a programas como o da USP, é prudente buscar orientação de profissionais antes de se fazer um diagnóstico por contra própria, pois as medidas e tratamentos precisam ser apropriados e sob supervisão de psicólogos ou psiquiatras.
Conclusão
A tecnologia deve ser uma ferramenta de expansão, não de aprisionamento. Reconhecer os sinais da dependência digital e da nomofobia é o primeiro passo para retomar o controle da própria rotina. Que tal começar agora? Desconecte-se um pouco do celular e reconecte-se com o mundo real ao seu redor. Sua saúde mental e física agradecem o equilíbrio.


